“Vamos, vamos!” tento sussurrar, mas minha voz sai em um grito agudo de pânico. “Não parem, temos que correr!” agora já não me importo mais, pois estamos longe. Mas vejo que está faltando alguém. “Marco! Corra!” grito, mas ele não se mexe. Então, atrevo-me a olhar por sobre o ombro, e vejo que alguém o segura pela gola da camisa xadrez. É ela, a bruxa. Ela arrasta-o para dentro de casa, e eu corro atrás deles. Não posso deixar ele para trás. Ao passar pela ‘líder’ dos ‘garotos malvados’ vejo que ela sorri ironicamente e cheia de satisfação. Vagabunda, ela havia contado! Corro até a casa e dou um chute forte na porta, entrando na cozinha. Ao entrar, consigo ver que a bruxa tem uma panela na mão, e nessa panela há gordura quente. Ela ameaça jogar a gordura em Marco caso nós não voltemos para casa. Sem saber o que fazer, fico em silêncio. A voz não quer sair de minha garganta. “Fuja, não se preocupe comigo. Quero que viva, Eliza. Corra!” Marco fala, e a bruxa vira a panela em cima dele, e logo o espaço é cortado por um grito de dor. “Bruxa!” finalmente consigo gritar. Tento me aproximar dele, e o marido da bruxa agarra-me pela cintura, colocando a mão em meus seios. Ele sempre fizera isso, não era agora que perderia a oportunidade. “Corra!” mais uma vez, o grito de Marco ecoa em meus ouvidos. Impulsiono a cabeça para frente e jogo-a para trás, fazendo o marido da bruxa cair contra a parede, gemendo de dor. Olho uma última vez para meu irmão, que sorri para mim, encorajando-me. Saio correndo pela porta estreita que eu havia chutado, indo em direção ao local onde os outros estavam me esperando. “Corra!” Ana grita para mim, e eu começo a correr mais rápido, sentindo que a bruxa está logo atrás de mim. “Vão, rápido!” grito, e vejo que eles começam a passar pelo pequeno buraco que eu havia feito na cerca hoje a tarde. Me abaixo e pego uma pedra enorme, todo o peso que meus braços enfraquecidos podem agüentar, e jogo-a em direção a bruxa, provocando dois filetes de sangue a escorrerem por sua pele nascendo no local onde a pedra acertou. Corro até João, o mais velho dos irmãos, que está me esperando na passagem. Passo facilmente pelo pequeno buraco, logo em seguida me viro para ajudá-lo a passar também. Corremos o quanto conseguimos até não conseguirmos ver nada da casa de que tanto queríamos nos livrar. E eu abro um largo sorriso, pois estamos livres. Mas ao ver a barulhenta Brasília cor de caramelo vindo em nossa direção, desfaço meu sorriso. “Aconteça o que acontecer, corram! Não parem de correr!” grito para todos, que começam a me acompanhar na corrida. “Não importa o que acontecer, no final sempre estaremos juntos!” grito novamente, agora já sem fôlego. E continuamos correndo.
domingo, 22 de maio de 2011
Dream.
Tudo ali era azul. Azul claro em algumas partes, azul escuro em outras. Os pequenos jardins em meio ao pátio de concreto eram bem cuidados, de um verde vívido. Vejo crianças brincando, mas suas expressões são tristes. Claro, sempre tristes. Já estou acostumada. Ando em meio a elas e poucas levantam a cabeça para me olhar, todas muito concentradas no que estão fazendo. Espera, elas não estão brincando. Elas estão trabalhando. De fato não dou muita importância, sinto que preciso ir até o banheiro. Ao chegar lá, vejo que as luzes estão apagadas. Tento acendê-las, mas de nada adianta. “Devem ter esquecido de pagar” penso, e logo pego o pequeno aparelho celular que guardava no bolso. Aperto rapidamente um botão, ligando-o. Assim que o processo de iniciar termina, uma luz forte parte da sua tela. Num impulso, aponto aquela luz para o espelho, para que eu pudesse ver meu rosto. Quando olho para os meus olhos através do espelho, começo a sorrir sem motivos. Logo depois, percebo que meus olhos não estavam mais azuis. Agora eles estavam negros. Aponto aquela luz para a pia, onde manchas escuras chamam a minha atenção. Ao chegar mais perto com a luz, posso perceber que não são simples manchas escuras. É sangue. Há algo de errado naquele lugar, e eu preciso sair dali o mais rápido possível. Saio do banheiro correndo até o pátio, onde um homem alto, magro e de cabelos grisalhos me pega pelos braços. Ele aperta, e aquilo machuca. Muito. Ele me empurra bruscamente e logo toma novamente a posse de meus braços. “Eles estão torturando crianças!” grita ele, e sinto todos os olhares em mim. “Em pleno século vinte e um, eles estão torturando crianças! E você os deixa fazerem isso! Como você pode? São apenas crianças!” ele grita cada vez mais alto, machucando meus braços com suas mãos e meus ouvidos com o tom de sua voz. “Pare!” sussurro. “Não é culpa minha.” Consigo finalizar. “É culpa sua” ele grita novamente. “É tudo culpa sua!”. E então, sinto as lágrimas brotarem de meus olhos e escorrerem por minha face.
De repente, abro os olhos e apoio-me nos cotovelos, levantando apenas por metade. Ofegante, percebo que estou em meu quarto, e que tudo aquilo não passara de um sonho. Um sonho real, e que escondia um significado.
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