Tudo ali era azul. Azul claro em algumas partes, azul escuro em outras. Os pequenos jardins em meio ao pátio de concreto eram bem cuidados, de um verde vívido. Vejo crianças brincando, mas suas expressões são tristes. Claro, sempre tristes. Já estou acostumada. Ando em meio a elas e poucas levantam a cabeça para me olhar, todas muito concentradas no que estão fazendo. Espera, elas não estão brincando. Elas estão trabalhando. De fato não dou muita importância, sinto que preciso ir até o banheiro. Ao chegar lá, vejo que as luzes estão apagadas. Tento acendê-las, mas de nada adianta. “Devem ter esquecido de pagar” penso, e logo pego o pequeno aparelho celular que guardava no bolso. Aperto rapidamente um botão, ligando-o. Assim que o processo de iniciar termina, uma luz forte parte da sua tela. Num impulso, aponto aquela luz para o espelho, para que eu pudesse ver meu rosto. Quando olho para os meus olhos através do espelho, começo a sorrir sem motivos. Logo depois, percebo que meus olhos não estavam mais azuis. Agora eles estavam negros. Aponto aquela luz para a pia, onde manchas escuras chamam a minha atenção. Ao chegar mais perto com a luz, posso perceber que não são simples manchas escuras. É sangue. Há algo de errado naquele lugar, e eu preciso sair dali o mais rápido possível. Saio do banheiro correndo até o pátio, onde um homem alto, magro e de cabelos grisalhos me pega pelos braços. Ele aperta, e aquilo machuca. Muito. Ele me empurra bruscamente e logo toma novamente a posse de meus braços. “Eles estão torturando crianças!” grita ele, e sinto todos os olhares em mim. “Em pleno século vinte e um, eles estão torturando crianças! E você os deixa fazerem isso! Como você pode? São apenas crianças!” ele grita cada vez mais alto, machucando meus braços com suas mãos e meus ouvidos com o tom de sua voz. “Pare!” sussurro. “Não é culpa minha.” Consigo finalizar. “É culpa sua” ele grita novamente. “É tudo culpa sua!”. E então, sinto as lágrimas brotarem de meus olhos e escorrerem por minha face.
De repente, abro os olhos e apoio-me nos cotovelos, levantando apenas por metade. Ofegante, percebo que estou em meu quarto, e que tudo aquilo não passara de um sonho. Um sonho real, e que escondia um significado.
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